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Pesponto 06/11/2011

Posted by Sus-pensa in Escritos.
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Há dias em que me escorrem palavras pelos olhos. Mais do que secreções lacrimosas, meus olhos tecem discursos inteiros. Olhando de perto, parecem-se, os discursos, com colchas de crochê feitas a mão. São trabalhados em bordados, belos, próprios para esquentar e proteger do frio, ou para enfeitar a cama. Nesses dias não me sai uma palavra pela boca. Somente os olhos conseguem exprimir aquilo que sinto, e que precisa ficar claro para mim ou para alguém. Sou tomada de uma mudez temporária, imprecisa, e profundamente delicada. Chorar palavras é um parto natural. E os olhos não estão preparados para todos os verbetes que o coração, ou a mente, enviam como mensagem a si ou a terceiros. Dói, sangra, cria desespero e perda de forças. Fico a ponto de desfalecer… mas quando nasce o que se tem de dizer, a sensação de prazer e felicidade e realização, é insuperável. É nascido o filho do amor, do sonho, da liberdade, da paz. E só o silêncio, qualidade primeira dos olhos, basta para que a dor seja relegada a um plano inferior, menor, pequeno – porém não ao esquecimento. A memória precisa lembrar do parto, não pelos traumas e sofrimentos causados, antes como o instante mesmo em que tudo muda, em que se firmam alianças novas com a vida, consigo próprio e com o outro.

Há dias assim.
Poéticos, quase.

Mas hoje é dia de escrita em lágrimas. E não sei dizer se escorrem pelos dedos, ou caem dos olhos, molhando as palavras. A visão está turva, e os dias parecem ainda não ter amanhecido.

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